ISHMAEL

Julius Lester


 

 

Como judeus nós nunca sabemos direito o que fazer com Ishmael, o primeiro filho de Abrahão. No entanto, em Rosh Hashaná, lemos sobre o nascimento de Isaac e sobra a expulsão para o deserto de Ishmael e de sua mãe, Hagar. O midrash diz: "De todos os testes pêlos quais Abrahão teve que passar, nenhum foi tão difícil de encarar como este, pois lhe doía imensamente ter que se separar de seu filho."

Os rabinos costumavam ficar perturbados com essa história. Alguns a racionalizavam, fazendo de Ishmael um vilão que merecia ter sido mandado embora. Eles o chamavam de um "selvagem" que, ao invés de pilhar os bens dos outros, , pilhava suas vidas. Ele seria um assassino, idólatra e ladrão, proclamou um rabino, e tomava o que queria pela força bruta.

Há uma base para tais comentário. Em Gênesis 16:12, Deus diz de Ishmael: "E ele será um homem selvagem: sua mão estará em todos e a mão de todos nele; e ele habitará entre as faces de todos os seus irmãos.

"No entanto, se seguirmos a vida de Ishmael através da Torá, essa caracterização não faz sentido. Ishmael viveu uma vida de justiça.

O midrash ressalta que "Ishmael é um dos seis homens a quem Deus deu um nome antes do nascimento, os outros sendo Isaac, Moisés, Salomão, Josias e o messias." E que nome ele ganha! Ishmael - "Deus ouvirá." Será este o nome de um "selvagem", um assassino e ladrão?

Quando Deus dá a aliança da circuncisão , Ishmael é circuncidado primeiro. Quando Isaac fica descontente com a escolha de Esaú de uma esposa canaanita, Esaú se emenda indo a Ishmael, seu tio, e tomando uma de suas filhas, Mahalat, como esposa (Gen. 28:9).

A Torá também dá a genealogia de Ishmael, o que sempre indica um sinal de respeito, e sua morte é registrada com as seguintes palavras: "E estes são os anos de vida de Ishmael, cento e trinta e sete anos: e ele exalou seu espírito e morreu: e foi reunido a seu povo"( Gen. 25:17). Somente os justos tinham suas idades registradas quando morriam.

Os rabinos não ignoravam estes fatos. O midrash sustenta que quando Abrahão se pôs a caminho com Isaac naquela viagem monumental, que conhecemos como Akedá, um dos dois servos que o acompanhavam era Ishmael. O midrash também diz que Ishmael, sua esposa e filhos viveram com Abrahão por muitos anos na terra dos filisteus.

Quem é este Ishmael, a quem os rabinos não puderam nem condenar inteiramente nem reverenciar totalmente? Quem é ele, para nós como judeus, este Ishmael a quem os seguidores do Islã estimam como um patriarca tal como fazemos com Isaac? O que devemos ouvir na história deste homem cujo nome significa "Deus ouvirá"?

Em Gênesis 21, lemos sobre o nascimento e a circuncisão de Isaac e sobre a celebração que aconteceu no dia em que ele foi desmamado, com a idade de três anos. No verso nove se encontram estas palavras: "E Sara viu o filho de Hagar, a egípcia, que ela teve com Abrahão, fazendo gracejos."

FAZENDO GRACEJOS

De cara, temos um problema: o que quer dizer "fazendo gracejos"? A palavra em hebraico é metsachek. Ninguém sabe direito o que significa. Ela vem de uma raiz que significa "rir", mas a forma utilizada não é usual.

Tudo o que sabemos é que Sara viu Ishmael "metsachek-ando". O que Ishmael estava fazendo que fez Sara se sentir tão ameaçada?

Nossos rabinos se divertem com isso. Alguns dizem que ele estava venerando ídolos. O midrash diz que "fazendo gracejos" refere-se a nada menos que imoralidade. Assim isso nos ensina que Sara viu Ishmael importunar virgens, seduzir mulheres casadas e desonrá-las. Rabi Ishmael dizia: "Isso nos ensina que Sara viu Ishmael construir altares , pegar gafanhotos e sacrificá-los." Outro rabino afirma que metsachek significa que Ishmael estava atirando flechas em Isaac de brincadeira. Ishmael está com 17 anos na época e Isaac tem só três: eu já ouvi falar de rivalidade entre irmãos mas isso é um pouco exagerado...

Com todo o respeito, eu não posso aceitar a interpretação dos rabinos, porque nada na história de Ishmael confirma tais interpretações. Alguns rabinos estavam tão ansiosos para condenar Ishmael e justificar Sara que deixaram passar o único lugar na Torá onde a palavra metsachek é usada.

Talvez, não por coincidência, ele ocorre na vida do meio-irmão de Ishmael, Isaac, quando ele está vivendo na terra de Gerar. Temendo ser morto por causa de sua esposa Rebeca, Isaac diz a Abimelech que Rebeca é sua irmã. Lemos em Gênesis 26:8: "E aconteceu, quando ele já estava lá há algum tempo, que Abimelech, Rei dos filisteus, olhou pela janela e viu que Isaac estava fazendo gracejos com Rebeca, sua esposa." Pelo que ele vê, Abimelech sabe que Rabeca não é irmã de Isaac, mas sua esposa.

INTIMIDADE VELADA

O que Abimelech viu que lhe revelou a verdade sobre a relação de Isaac e Rebeca? O que Sara viu que lhe mostrou a natureza da relação entre Ishmael e o pequeno Isaac?

O que foi visto em cada instância, acredito, foi uma certa qualidade nos relacionamentos, uma qualidade de intimidade velada que existe entre marido e mulher e entre irmãos. É aquela qualidade percebida em como o corpo dos dois se relaxa completamente na presença do outro, um relaxamento do corpo que acontece quando recebemos o outro como pertencendo a nós, como sendo nosso de todos os modo silenciosos e misteriosos.

Eu imagino Ishmael brincando com seu irmãozinho, mostrando-lhe como um arco-e-flecha funciona. Eu imagino o pequeno Isaac se deliciando com o arco que as flechas formam no ar em seu vôo. Eu vejo Isaac olhando para cima, para seu irmãozão, admirando seus músculos firmes e duros quando ele estica o arco. Está na natureza das coisas que o mais novo olhará para o mais velho e tentará emular o mais velho. no mais velho, o mais novo tem uma visão de quem e o que ele pode vir a ser.

Sabemos como é isso. Há um Ishmael e um Isaac em cada uma de nossas famílias.

Quantos de nós somos o Isaac de nossas famílias e quantos d nós o Ishmael?

É com dor que eu penso em meu irmão, o Ishmael de nossa família, o homem selvagem, e eu, o favorecido Isaac. Havia 14 anos de diferença entre Ishmael e Isaac, nove entre mim e meu irmão. Eu me recordo de olhar para sua figura musculosa na esperança de que eu também fosse ser tão grande e forte quando crescesse. Eu me lembro do assombro que eu sentia perante a quantidade de galinhas, batatas, molho e pãezinhos que meu irmão traçava com mais prazer do que eu poderia imaginar em sentir. E lembro-me também da advertência sussurrada de meu pai: "Não seja como seu irmão. Você vai ser melhor do que ele. Você vai ser alguém quando crescer.

A criança, presa entre o amor do pai e o amor do irmão, escolheu o amor do pai. Meu irmão e eu nos tornamos estranhos um ao outro. Meu pai e meu irmão conluíram em lançá-lo no deserto e, de um modo mais profundo, meu irmão nunca retornou.

DESCRIÇÃO ENIGMÁTICO

Eu ouço uma voz de dentro da história e de dentro de mim, gritando em agonia: Por quê?

Quem era Ishmael para que fosse negado a Isaac seu amor?

Vamos examinar novamente o que Deus disse de Ishmael:

E ele será um homem selvagem: sua mão estará em todos e a mão de todos nele; e ele habitará entre as faces de todos os seus irmãos.

Esta é uma descrição enigmática, quase mística de um ser humano. Há algo assustador sobre ela, tanto assim que é preciso um esforço de vontade para se ouvir as palavras nas câmaras internas da alma onde relutamos em entrar.

Os rabinos dizem que um homem selvagem, é aquele que "ama os espaços abertos para caçar animais selvagens", que é "sem medidas na vida, traiçoeiro para com estranhos" - um nômade. Um homem selvagem "não pode ser domesticado"; ele ama a "liberdade sem restrições" e se recusa a " se submeter a regras de estranhos". O comentarista italiano Sforno diz que Ishmael tinha uma herança dupla: do lado de sua mãe ele era um selvagem, com "uma paixão por independência e uma sede de liberdade". Da parte de seu pai havia a aspiração "à perfeição humana".

Se eu deixo as palavras penetrarem nos cantos empoeirados e com teias de aranha da minha alma, tenho que admitir que há algo dentro de mim que é "sem medidas na vida, traiçoeiro para com os estranhos", algo que ama a "liberdade sem restrições" e que "tem uma paixão por independência e uma sede de liberdade". Estas qualidades são nossas, mas nós somos possuídos por elas enquanto forem desdenhadas e desamadas.

Ishmael mora entre todas as nossas faces, não é mesmo? Poderia ser esta parte indomável e sem redenção de nós que Sara temeu na intimidade da relação entre Isaac e Ishmael? Pode ser que ela o mande embora por saber que Isaac tem que se tornar Isaac antes de empreender a perigosa viagem de integrar em si mesmo aquele selvagem que é uma parte de todos nós?

O MAL NÃO RECONHECIDO

Entretanto, é grande a freqüência com que cada um de nós, homens e mulheres, mandamos nosso Ishmael para o deserto. Pensamos que nos livramos do selvagem para sempre, mar não é o que acontece. Nós o vemos quando olhamos para outra pessoa e vemos o mal em seu rosto. É o nosso próprio mal não - reconhecido que miramos, mas nos recusamos a vê-lo como nosso.

Eu me lembro de uma noite quente de agosto, há muitos anos. Era a noite anterior ao funeral de meu pai. Meu irmão e eu nos sentamos na sala, lado a lado, vendo televisão. Embora ele tivesse saído de casas para seguir a carreira militar quando eu tinha oito anos de idade e nós nos tivéssemos visto umas cinco vezes nos últimos trinta e quatro anos, ele ainda era o irmãozinho da minha infância. Eu não sabia, então que Isaac e Ishmael haviam reconciliado as diferenças e se juntado para enterrar o pai, mas certamente naquela noite , antes de enterrarmos nosso pai , senti a necessidade do amor reconciliador de meu irmão de uma forma que não sentia desde a infância.

Não me lembro o que tinha na televisão naquela noite, mas algo ativou sua memória e ele disse, de repente: "Eu sou um assassino." Ele o disse como um fato. "Nunca saberei quantos eu matei no Vietnã." Eu não sabia o que dizer, ou como responder, mas fiquei com raiva e fiquei com vergonha da minha raiva inexplicável.

Eu sei agora que a raiva era a resposta apropriada. O que eu queria ter dito a ele era:

"Pare de bancar o Ishmael. Eu também sou um assassino." Eu queria que meu irmão soubesse que nosso pai havia nos expulsado para o deserto e que com uma freqüência demasiada eu fazia o mesmo com meus filhos e minha mulher, apesar das minhas intenções, apesar mesmo do meu desejo. Os castigos impostos e a arrogância aniquiladora da raiva foram meu modo de expulsar Ishmael dos rostos dos meus filhos.

Porém a face de Ishmael está na minha e é a minha e está sempre lá, para que eu tenha que enxergá-la. O que eu precisava e eu preciso dizer para ele é: eu não posso parar de ser Isaac se você não parar de ser Ishmael. Você também é Isaac e eu também sou Ishmael.

O judaísmo não é uma religião que designa o mal a uma força externa chamada Satã.

Quando nós dizemos no Shemá que amaremos o Senhor nosso D'us com todo nosso coração, toda a nossa alma e todas as nossas forças, a Mishná comenta que amar a D'us com todo o nosso coração significa amar com toda a nossa inclinação para o bem e nossa inclinação para o mal.

Em Yom Kipur, nós confessamos nossos pecados. Nós nos pomos de pé e reconhecemos que estamos afastados do Sagrado e de nós mesmos. Talvez seja por isso que começamos o Dia da Perplexidade com a leitura sobre Ishmael, o selvagem, o arqueiro com seu arco e flecha que habita no deserto de cada um de nós, que habita entra as nossa faces.

Somente quando nos confessarmos com Isaac e com Ishmael de nossas almas, é que D'us ouvirá.

- D'us ouvirá !


Sobre o autor:

Julius Lester ensina estudos afroamericanos e estudos judaicos na Universidade de Massachusetts, em Amherst.

Retirado do Reconstructionist, vol LII, num 1,setembro de 1986

 

 
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